Lendo Contos: A morte do funcionário de Anton Tchekhov

Eu simplesmente não consigo parar de ler Tchekhov. Ele é o que todo mundo diz mesmo, um dos melhores contistas da literatura.

Depois de passar pelos seus contos mais longos e uma das suas poucas novelas, mergulhei nos contos curtos. Incrível o que ele consegue fazer em poucas páginas. Tchekhov tinha a rara habilidade de retratar coisas sobre a vida humana que quase ninguém fala sobre, mas que todos sabem muito bem o que significam: o constrangimento, a tristeza, a vergonha, o pesar, a feiura, a dificuldade, o emblema, A dor, A realidade… da cena ou situação por ele tão bem descritas. Algo se quebra ou se constrói por dentro lendo Tchekhov. Talvez uma maior consciência do que é a vida fora da nossa bolha, ou há daqui uns anos, quando o vigor da juventude passar, quando algumas ilusões já tiverem passado.

A morte do funcionário, é um exemplo dessas narrativas primorosas do autor. Nessa, ele nos conta sobre um homem que está num teatro, assistindo o espetáculo tranquilamente, feliz com a vida. Quando de repente esse homem espirra – sim! atchim!!! Dando aquela olhada em volta para ver se incomodou alguém, percebe que espirrou bem na careca de um velho sentado à frente que por acaso era um general civil, um dos chefes de sua repartição. Ele se desculpa na mesma hora e o general responde que não tinha importância.

A partir disso inicia-se uma tortura interna no protagonista. Ele nem presta mais atenção no espetáculo, seu semblante decaí. Ele não se aguenta, pede desculpa novamente: “Perdoe-me, pelo amor de Deus… Realmente, foi… sem querer…”; e o general volta dizer que não tinha problema.

O funcionário vai para casa com aquilo, fala à sua esposa com muita preocupação sobre o acontecido, não consegue esquecer. No dia seguinte, advinha? Coloca seu uniforme, corta o cabelo e vai à casa do general pedir desculpa novamente… Vou parar por aqui porque o conto é curto, todavia o título é uma dica do que vai acontecer.

O conto parece ser até é engraçado, mas não. Quantas vezes, coisas pequenas que acontecem fixam em nossas mentes em preocupações sem motivo pra ser. Quantas vezes cismamos com as pessoas por coisas que não fazem sentido algum. Quantas vezes nossa energia é consumida por coisas que só são reais em nossa cabeça pequena.

“Espirrou, conforme estão vendo. Não é proibido espirrar, seja a quem for e onde for. Espirram os mujiques, os chefes de polícia e, às vezes os próprios conselheiros privados. Todos espirram.”

“Diz que esqueceu, mas há maldade em seus olhos”, pensou T., olhando desconfiado para o general.


+INFO Conto: A morte do funcionário | Autor: Anton Tchekhov | Primeira publicação: 1883 | Edição lida: A dama do cachorrinho, Coleção Leste Editora 34, 2005

★★★★★

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