A Vida Invisível de Eurídice Gusmão de Martha Batalha #105

Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas.” – Frase da Sinopse

Meu comentário de hoje e o anterior – O Abrigo de Nora Roberts -, ainda que sejam de leituras que fiz em momentos diferentes, na minha cabeça são uma dobradinha. Ambos os livros são bem escritos, ambas autoras sabem fazer o que fazem. E olha que quando falamos de Nora Roberts estamos falando de uma autora de romances consagrada e, quanto a Martha Batalha, A vida invisível de Eurídice Gusmão, é seu romance de estreia. Não se trata aqui evidentemente de comparar as duas, mas de dizer que ambas são para mim exemplos de autoras que o estilo, a escrita em si, não é o problema.

Martha Batalha (1973- ) é uma escritora e jornalista brasileira. A Vida Invisível de Eurídice Gusmão foi publicado pela editora Companhia das Letras em 2016. É dito sobre ele por todo lado que se trata de um romance sobre a invisibilidade feminina. Na obra, nos é apresentada a trajetória de vida das duas irmãs, Eurídice e Guida. O cenário é o Rio de Janeiro de 1940. Eurídice, já no começo se casa com um bom rapaz e se torna uma boa dona de casa. Guida, desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, apenas a suspeita de uma fuga com o namorado…

De fora do grande burburinho na internet no ano de estreia, esse é um livro que me pegou pela capa. E comecei gostando bastante da leitura, me surpreendendo com o estilo da escrita. Além das duas irmãs, temos muitos outros personagens com histórias interessantes que vão se cruzando na narrativa. Tudo isso prende o leitor da primeira à última página. Mas como aconteceu na leitura de O Abrigo, aquele entusiasmo inicial não demorou a cair e cair tanto que nesse caso, foi ladeira abaixo.

O feminismo da autora na minha opinião soou alto demais. E, é claro que esse destaque, o grito dessas ideias vão agradar um público, mas um público específico; inclusive fora do Brasil já que segundo o site da Companhia das Letras o romance teve seus direitos vendidos para onze países e para o cinema. Porém, para aqueles fora da bolha, é como se o tom militante estragasse ou contaminasse a literatura. E não se trata de colocar ou não suas ideias políticas, religiosas, fazer críticas à sociedade etc., dentro da literatura; afinal de contas é isso o que os escritores fazem, eles escrevem a partir da sua percepção de mundo. O que quero dizer, e criticar, é quando esse “grito” se torna mais alto e mais importante que a literatura.

A vida invisível de Eurídice Gusmão, foi finalista do prêmio São Paulo de Literatura e semifinalista do Oceanos, além de ter os direitos vendidos para mais de onze países e para o cinema.

A autora diz numa espécie de prefácio que “Eurídice e Guida foram baseadas na vida das minhas, e das suas avós.” Entretanto, na página 46, o narrador chega a prever o que o leitor está pensando: “E aqui o leitor se pergunta: será que todas as mulheres nesta história são tristes ou amargas? De jeito nenhum.” Mas essa resposta é desonesta, porque SIM, todas as mulheres desse livro são tristes e amargas, e não só: todos os homens são ruins e tolos, todos os relacionamentos são péssimos, todas as crianças são como um peso para se carregar e por aí vai. E eu não sei quanto a você, mas conheço muitas histórias de vovós que enfrentaram momentos difíceis sim – como todos na vida -, mas que também foram felizes e sentem orgulhosas de suas histórias pois sabem que são exemplos de mulheres fortes, guerreiras, virtuosas… Mulheres idôneas, que criaram as gerações passadas numa época que o merthiolate ainda ardia.

Outra impressão que ficou ou não ficou, explico. É que ainda que numa narrativa leve e bem humorada, o livro retrata muita dor e sofrimento – fato, todavia, incrivelmente nada te toca – ao menos não me tocou. E por que não toca? Porque é um livro vazio. Porque ainda que retrate com algumas aspas um reflexo de uma realidade, uma crítica social que tem sua razão de ser com mais aspas, o lado escuro de um quadro… é só isso que tem ali. Não há um vislumbre de algo maior, ou um significado. E para mim a grande prova disso, do vazio e da pobreza (ou ausência de beleza se quiser) dessa obra é o seu desfecho. Para você que leu, convenhamos, se tratando de Eurídice, seu final foi previsível e ainda assim, insatisfatório, convenceu quem? Se tratando de Guida, o que foi aquele episódio da bala puxa-puxa? Achei um absurdo aquilo, e estou me perguntando até agora o que aquilo agregou à história? Nada, essa é a questão.

https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=05232


+INFO Livro: A vida invisível de Eurídice Gusmão | Autora: Martha Mamede Batalha (1973- ) | São Paulo: Companhia das Letras, 2016 | 192 páginas | Compre: EditoraEstante Virtual

★★

2 comentários sobre “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão de Martha Batalha #105

  1. Não tenho complexo de assumir que sou pela liberdade total em matéria de ideias e cultura, mas estou de acordo que muitas vezes quando a obra torna-se mais uma manifesto político, um cartaz de promoção de uma ideia do que arte, frequentemente desligo-me do artista. Sim, nenhum escritor deixa de ceder a sua forma de pensar às suas obras, mas alguns tornam estas subservientes e deixo de admirar quando se perde o equilíbrio.

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    1. Que bom que me fiz entender. Também sou a favor da liberdade na arte da escrita. Como leitora procuro manter a mente aberta e a ler de tudo o que me dá vontade. Todavia, é essa falta de equilíbrio, que percebo principalmente na literatura contemporânea, que a meu ver é desastrosa.

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