Autoridade de Jeff Vandermeer #106

Tentarei não dar spoilers, mas fica o aviso que esse é o meu comentário sobre o segundo volume de uma Trilogia.

É um fato: eu não gostei do primeiro volume da Trilogia Comando Sul. Se me propus a ler o segundo é talvez por conta desse título “Autoridade”, ou simplesmente por aquelas coisas de leitor que nem a gente entende. Mas também é fato que, por mais desconfiada que eu entrei na leitura de Autoridade, em pouco mais da metade do livro me dei por vencida e admiti que o livro é bom – pelo menos muito melhor que o primeiro.

Para quem não está nada familiarizado com a trilogia aqui vai a sinopse: Por décadas, o único vínculo humano com a Área X — um lugar cercado por uma fronteira invisível, misteriosamente sem vestígios de civilização — foram as expedições monitoradas pelo Comando Sul, uma agência secreta do governo. Após a tumultuada décima segunda expedição, narrada em Aniquilação, a agência acaba imersa em um completo caos. John Rodriguez, conhecido como Controle, é então nomeado diretor. Apesar dos funcionários desconfiados e desesperados da agência, da frustração dos interrogatórios e anotações que parecem não levar a lugar algum e das horas e horas de registros em vídeo a pesquisar, Controle começa a desvelar os segredos da Área X. Mas, a cada descoberta, ele precisará confrontar verdades perturbadoras sobre si mesmo e sobre a organização para a qual se comprometeu a trabalhar. Em Autoridade, segundo livro da trilogia Comando Sul, as perguntas mais inquietantes sobre a Área X são respondidas. Mas o que se descobre está longe de ser reconfortante.

No primeiro volume, Aniquilação, o cenário é a Área X, onde tudo é tão confuso que me cansou completamente. No segundo volume, o cenário, o foco narrativo, são o Comando Sul e a Central, que são agências secretas do governo, aqueles que estão no comando da coisa toda de fora da Área X. Passamos a conhecer o lado de cá da coisa, o suposto “mundo real” que está lidando com algo irreal (um fenômeno, atividade extraterrestre?) que apareceu no mundo, aqueles que estão no controle, aqueles que decidiram sobre quando, como e quem iria para a Área X. O que amplia brutalmente o nosso entendimento sobre afinal o que Jeff VanderMeer vem tentando construir na nossa cabeça. E ainda que ele seja o tipo do autor que parece ter a habilidade de dizer não dizendo, tudo passa a fazer algum sentido.

Dessa vez temos como protagonista, o John Rodriguez, auto apelidado de “Controle”, que é então o novo diretor do Comando Sul. Com o fim da 12ª expedição, e com o não retorno da psicóloga que era a diretora do Comando Sul, Controle assume o cargo da mesma, e atua como um espécie de espião da Central dentro do Comando Sul, afim de descobrir o que está dando de muito errado naquele lugar.

Os capítulos ou as divisões que o autor escolheu usar dessa vez são estranhas, porém funcionaram por serem mais curtas, conferindo mais velocidade a leitura. O enredo é basicamente o dia a dia de trabalho de Controle no Comando Sul (manhã, tarde e noite) e as descobertas dos grandes e pequenos segredos daquele lugar talvez mais estranho que a Área X.

O ponto alto do livro na minha opinião

Sinceramente não sei se entendi plenamente o que o autor quis dizer com o título “Autoridade”, mas há algumas possibilidades legais, que pelo lado psicológico da maneira como foi abordado serão diferentes de leitor para leitor. E há dois temas dos muitos explorados dentro dessa obra que me chamaram muito atenção: a questão do condicionamento hipnótico e umas explicações sobre linguística.

Sobre isso eu poderia me alongar muito aqui, mas digo apenas e principalmente em se tratando da possibilidade explorada no livro do condicionamento hipnótico de pessoas, que o autor consegue aquele ponto alto da literatura quando ela não só afirma ou descreve algo, ela demostra algo. E para mim, agora enfatizando os dois temas – a hipnose e o uso das palavras -, essa demonstração da possiblidade não tão remota de grandes ameaças para qualquer sociedade usando esse tipo de tática? arma?… me assustou mais do que as descrições da Área X e todos os momentos tensos. Realmente isso tenho certeza já me valeu a leitura da trilogia.

Personagens e narrativa

Quanto a construção de personagens, eu gostei do protagonista “Controle”, da personalidade, dos flashbacks. Bem como da exploração, sob a perspectiva dele dos outros personagens e até aqueles que vieram de Aniquilação. E fiquei com uma forte impressão que gosto mais da escrita do autor em terceira pessoa e na perspectiva masculina. Com base nesses dois volumes para comparar (primeira pessoa – mulher / terceira pessoa – homem), acredito que um dos grandes motivos de eu não ter gostado do primeiro volume está aí.

Ainda sobre a narrativa, continuo achando a escrita do Jeff VanderMeer confusa, e não citei isso no meu primeiro comentário sobre a trilogia, mas estou pensando desde do primeiro livro, na possibilidade de talvez, só talvez ser a tradução. Tem muitas frases desconexas e até parágrafos inteiros que não fazem muito sentido, quando tendo para a hipótese da tradução. Porém, muitas metáforas e analogias do autor são muito ruins, quando tendo a achar que é mesmo a escrita dele o problema. De qualquer forma, há muito enrolação nesse segundo volume que deve ser creditado ou debitado do autor mesmo. A leitura me cansou menos que o primeiro, mas cansou em vários momentos.

Como já disse aqui eu não sou uma leitora de ficção científica e, acrescento que também não sou leitora de trilogias ou séries. Nas duas coisas, ainda estou engatinhando e pode ser que começando a simpatizar. Talvez eu esteja mais empolgada que o normal, mas termino dizendo que Autoridade me fez ter vontade não só de reler um livro que não gostei (Aniquilação), como de explorar mais o gênero da ficção científica (acredite, uma mudança e tanto na minha vida de leitora).


+INFO Livro: Autoridade #2 | Trilogia: Comando Sul | Autor: Jeff VanderMeer (1968- ) | Tradução: Braulio Tavares | Rio de Janeiro: Intríseca, 2014 | 384 páginas

Nota: ★★★

Encontre aqui: Amazon, Estante Virtual

2 comentários sobre “Autoridade de Jeff Vandermeer #106

  1. Vejo que ainda vai no segundo e deve ir até ao fim da trilogia.
    Eu leio alguma ficção científica, inclusive de vários tipos, desde a que se passa noutros mundo galácticos como a de Isaac Asimov, como outra mais antiga do século XIX e início do século XX como as de H G Wells e a sua guerra dos mundos e a maravilhosa novela “Maquina do Tempo”, bem como ficção distópica passada num futuro mais ou menos próximo como a produzida por Margaret Atwood, onde adorei a sua trilogia iniciada por Oryx e Crake.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Carlos! Desculpe a demora para responder, estive afastada do blog. Toda essa coisa da guerra desanima a gente um pouco.

      Então, realmente acho que finalizo essa trilogia, comecei a ler o terceiro ontem. Do Wells, nunca li nada, apesar de ter uma edição da Máquina do Tempo aqui em casa. Talvez eu até pegue para ler ele esse ano, vamos ver.

      Tenho interesse em ler Atwood por conta das tuas resenhas, preciso adquirir os livros.

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