A literatura como remédio de Dante Gallian #108 | Resenha

Então eu leio e sou lido, percorro e sou percorrido, descubro e sou descoberto. Então ocorre o processo de questionamento que pode trazer tanta coisa nova ao revelar camadas antigas de mim. Tudo se rearranja. O custo disto? Ter a coragem e o método de enfrentar um volume paciente e silencioso na estante. Ele só poderá falar se aberto o livro físico ou acessado o virtual. Independente do suporte, o texto falará.” (p. 9)

Toda essa loucura dos tempos modernos está nos adoecendo

A literatura como remédio.” Para mim essa frase faz tanto sentido, faz tantos anos que eu leio e encontro nos livros tantas coisas que me fazem bem, que sim, concordo que a literatura pode ser um tipo eficiente de remédio para a nossa mente e coração… E principalmente em tempos como o nosso, que como o autor, Dante Gallian, denuncia, é tão marcado pelo imediatismo e pelo produtivismo.

A verdade é que estamos sempre com pressa e preocupados, e a tecnologia que veio para teoricamente nos ajudar a ter mais tempo, acaba por ser às vezes aquilo que nos rouba mais tempo e nos deixa cada vez mais ansiosos. O que nos escapa, e para mim esse foi o melhor insight desse livro, é que toda essa loucura dos tempos modernos está nos adoecendo e até desumanizando.

“Nossos tempos estão desnorteados, dizia o Hamlet de Shakespeare, há também quase quatrocentos anos. De lá para cá, esse desnorteamento aumentou e a humanidade, na mesma medida em que encheu a terra de conquistas e mazelas da ciência e da tecnologia, se viu esvaziada no território da alma, do sonho, do mundo interior. E nesse esvaziamento desumanizador, que tantas e tantas patologias tem provocado, homens e mulheres procuram desesperadamente remédios que lhes devolvam a saúde perdida.” (p.26 – grifos nosso)

O autor além de nos lembrar desse grande poder que esse antigo e extraordinário remédio que é a literatura, principalmente a literatura clássica, tem na recuperação da saúde existencial da humanidade, nos conta a história de seu experimento com seus Laboratórios de Leitura. O projeto dos Laboratórios de Leitura do professor Dante Gallian, surgiram inicialmente numa escola de medicina, se expandindo posteriormente para empresas, instituições e até grupos domiciliares. Para simplificar, os laboratórios que ele chama de LabHum (Laboratório de Humanidades) e LabLei (Laboratório de Leitura), são na prática uma espécie de clubes de leitura, porém com uma metodologia própria. Assim sendo, A literatura como remédio: os clássicos e a saúde da alma, publicado em 2017, pela editora Martin Claret, cumpre a missão de compartilhar toda essa experiência, afim não só de incentivar a leitura em si, e portanto um stop nessa nossa vida imediatista e super ocupada, mas incentivar a leitura da literatura clássica de forma coletiva.

Essa foi para mim uma leitura muito rica. Principalmente com capítulo 2 “A Literatura como remédio”, eu aprendi muito, pois o autor de forma sucinta explica o porque as histórias são tão importantes para a formação do ser humano – e aqui leia-se para a própria formação do humano. É aqui também que Dante separa os diferentes modelos de aprendizagem, que se dão: pelo exemplo e pelo conceito. Mostrando no decorrer dos séculos como chegamos até aqui, onde estamos todos presos a um processo terrível de desumanização “imposta por uma visão excessivamente técnica, racionalista e cientificista da Modernidade.” (p. 84)

Para além disso (feito o diagnóstico e receitado o remédio), o livro ensina uma metodologia para grupos de leitura. E não é tão óbvio como eu mesma imaginei inicialmente, ao contrário, as orientações são muito válidas e até dicas que podemos aplicar na nossa vida de leitura solitária.

Ah e eu já ia esquecendo de comentar sobre o prefácio que foi escrito pelo Leandro Karnal. Essa foi a única parte do livro que eu não gostei. Não gostei ao ler sem antes ter lido o livro e agora tendo o lido, gosto menos. Para mim, o estilo, digo a forma que, o historiador e doutor Leandro Karnal, escolheu escrever esse prefácio vai na contramão do próprio conteúdo do livro. Para mim seus parágrafos super elaborados não passam de um “verniz de intelectualidade”, que no final das contas não quer dizer nada – salvando a citação que escolhi para abrir essa resenha.


+INFO Livro: A literatura como remédio: os clássicos e a saúde da alma | Autor: Dante Gallian | São Paulo: Martin Claret, 2017 | Páginas: 201 | Compre: Skoob, Amazon, Estante Virtual

★★★★★

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