Quase Memória de Carlos Heitor Cony | Resenha

Prefiro mergulhar na lembrança dele, em tudo o que foi e quis ser. É fórmula covarde para fugir. Diante da memória, sou mais cúmplice do que testemunha.

Esse livro marca o retorno de Cony aos romances, depois de um hiato de cerca de 20 anos, e ele retorna com esse que é um livro até difícil de definir a que estilo narrativo pertence.

“Uma quase memória, ou um quase romance, uma quase biografia. Um quase quase que nunca se materializa em coisa real como esse embrulho, que me foi enviado tão estranhamente. E, apesar de tudo, tão inevitavelmente.”

“Desde que voltei do almoço não saí daqui, desta sala, desta mesa, deste embrulho no qual não mais toquei. Nem precisava: basta olhá-lo. Se me metesse a escrever um livro sobre o que está acontecendo, alguém acharia nesse embrulho, vindo brutal e inesperadamente do passado, uma referência, associação ou plágio da madeleine de Proust – e aí me cobrariam um romance. E como não há romance, além da pretensão, constatariam o meu fracasso.”

Aqui o Cony (que deu um salto gigantesco para o posto de autor favorito, coisa que ainda será confirmada depois de eu ler mais livros dele) se coloca como um personagem para poder contar a história da vida de seu pai. E ele faz isso da seguinte forma:

Cony está almoçando no restaurante de um hotel no qual jamais se hospedou, mas que vai com alguma frequência almoçar, de uma a três vezes por semana. Então um funcionário o entrega um embrulho endereçado a ele, que imagina se tratar de um manuscrito que algum autor iniciante quer que ele leia, mas aí ele percebe que o embrulho não possui remetente, mas o mistério de quem o mandou logo é desvendado pois além do familiar cheiro de manga e brilhantina, o embrulho possui características que inculcam nele a certeza de que o tal embrulho foi mandado pelo seu pai… que morreu há dez anos.

A partir daí mergulhamos em lembranças narradas de uma forma envolvente e emocionante, onde o autor vai mostrar a saudade que sente do pai sem falar em momento algum a palavra em si.

Essa edição da TAG é linda e traz na capa a imagem de uma manga, fazendo referência a um dos momentos mais hilários do livro, além de trazer uma pequena introdução exclusiva escrita e assinada pelo próprio autor (o livro foi enviado pelo clube em Setembro de 2017, Cony, infelizmente, nos deixou em Janeiro de 2018, aos 91 anos), então eu considero a assinatura dele como um autógrafo u.u

Apesar de ser uma edição especial, com muita coisa que a torna especial, incluindo a luva que imita o embrulho da história, acho a capa da edição lançada pela Alfaguara (essa à direita) muito mais bonita, e também faz referência a outro belo momento da história.

Sei que teve um filme baseado nesse livro, mas ainda não tive coragem de assisti-lo. O livro acaba fazendo com que a gente reveja nossa relação com nosso próprio pai. Ernesto Cony não era uma pessoa isenta de defeitos, mas o autor mostra que depois que um pai se vai a saudade é tanta que até os defeitos dele deixam saudade.

Este é um livro para acalentar seu coração, ao mesmo tempo em que te fará chorar e rir.

Há três passagens que gostaria de frisar, para que você lembre de mim quando ler, hehe:
1° – A passagem das mangas no cemitério;
2° – A passagem do balão (desde a montagem até a intervenção da polícia);
3° – A passagem onde Ernesto fica responsável pelo jornal enquanto os patrões vão para Minas Gerais convencer o governador a concorrer para presidente, passagem essa que eu me revezava rolando de rir, morrendo de indignação e agonizando de vergonha alheia.

Enfim (acharam que não teria “enfim” nessa postagem, né!), é um livro fenomenal, que vai te divertir, entreter, te fazer refletir além de te dar um belo choque de realidade, entrou fácil para a lista de favoritos da vida.

*Publicado originalmente em 18/09/2019, no Hiattos.

*Crédito imagem da capa


+INFO Livro: Quase Memória | Autor: ‎Carlos Heitor Cony | Editora: Nova Fronteira (Edição Exclusiva TAG) | Páginas: 269 | Compre: Estante Virtual

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