Helena de Machado de Assis #115 | Resenha

Vamos lá, disse ele; ninguém pode decidir o que há de fazer amanhã; Deus escreve as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais que transcrevê-las na terra.” – Machado de Assis

Estou numa febre Machado de Assis? Estou.

Helena, de Machado de Assis, foi publicado pela primeira vez em 1876. É o terceiro romance do autor, conhecido como o mais romântico de sua obra.

O romance inicia com o anúncio de uma morte. Morre o Conselheiro Vale, um homem rico, que possuía um cargo importante, terras, respeito etc. Ele deixa um filho, Estácio, e uma irmã, Dona Úrsula. Em seguida ficamos sabendo que o testamento desse homem foi uma bomba para os herdeiros enlutados. No documento, o Conselheiro Vale, reconhece uma filha ilegítima e prevê não só a parte dela na herança, mas que a mesma seja incluída imediatamente no seio da família. Assim ficamos conhecendo Helena, uma bela e boa moça de dezessete anos, que carrega em si muito mistério e será motivo de grande tensão nessa família tão logo ela pisa os pés na mansão da chácara do Andaraí.

É o segundo romance que leio do Machado. Li Helena logo depois de terminar Ressurreição, então como é de se esperar, minhas impressões imediatas colocam agora as obras lado a lado: Achei o enredo de Helena mais elaborado que o de Ressurreição, porém gostei muito de ambos. Quanto a atmosfera de suspense criada, a leitura de Helena chegou a me dar angústia. A cada página lida o mistério crescia e como eu não dispunha de tempo para ler rápido – como fiz com Ressurreição -, me bateu aquela ansiedade. Quanto aos personagens, me apeguei mais aos personagens de Helena do que de Ressurreição. Sei que vai variar de leitor para leitor, essa questão de gostar ou não de um livro é mais subjetiva que imaginamos, todavia, digo que Helena realmente é uma história muito boa e envolvente.

Algo a se destacar em Helena, e principalmente para uma leitora como eu de Jane Austen, são as menções aos escravos, mas não só as menções, o olhar de Machado de Assis para escravidão, achei de uma grande sensibilidade. Ele não usa suas linhas para protestar etc., mas um leitor atento será capaz de perceber que somente um olhar de alguém que sentia, que sabia do quão terrível era a ausência de liberdade, podia escrever dessa forma. Especialmente a cena em que Estácio e Helena estão cavalgando pela estrada e avistam um escravo, o diálogo entre esses dois personagens, é um trecho para recordar. E citei Jane Austen, uma porque para mim tem sido muito difícil ler esses livros da fase romântica do Machado e imaginar as cenas acontecendo no Brasil, minha mente sem querer voa para Inglaterra; e outra, porque nos livros da Jane Austen, sabemos que os escravos estão ali, na cozinha, servindo as moças, etc., porém nunca ou quase nunca são sequer mencionados. Gostei muito de ver isso em Helena.

Outro ponto alto para mim nesse romance, foi a figura do Padre Melchior. Achei esse personagem muito interessante. Ele é uma espécie de orientador espiritual da família de Vale e as descrições de sua personalidade, virtude, pensamentos e falas, são incríveis. Lendo eu lembrei até que na leitura de O Alienista eu tinha ficado muito admirada com as mesmas descrições (personalidade, virtudes, pensamentos…) do personagem Simão Bacamarte, que é o “gênio” da obra. Em Helena, Machado descreve agora um “sacerdote” ideal, o que esperamos de um, o que desejaríamos encontrar e desfrutar da companhia e bênçãos. O papel que esse padre exerce na trama de sábio, mediador, conselheiro… é muito bom e convincente.

A questão Machadiana também, ainda que Helena seja bem bemmm romântico, com exageros bem perceptíveis e inverossímeis também, eu percebi alguns toques do realismo psicológico, o que dá todo tom genial a obra.

Eu amei ler Helena, de verdade, é surpreendente como uma obra de 146 anos tem a força de nos divertir, envolver, ensinar algo. Para finalizar, gostaria de dizer a você que chegou até aqui nesse Blog 🙂 e ainda não leu nada do Machado de Assis, recomendo muito que você dê uma chance para esse autor clássico, incrível!, da literatura brasileira. Apesar dos séculos que nos separam a escrita do Machado de Assis não é muito difícil – principalmente se comparada com outros autores de sua época -, ainda que sim, vai exigir algum esforço, que vale muito a pena. E caso aceitar o desafio, recomendo também que você comece pelos contos e não pelos romances. Eu fiz isso e essa é minha dica para qualquer pessoa que queira começar a ler qualquer autor novo, se tal autor escreveu contos, comece pelos contos. Do Machado eu recomendo os contos: O Alienista, O Espelho, Antes que se cases e A Causa Secreta.


+INFO Livro: Helena | Autor: Machado de Assis (1839-1908) | Primeira publicação: 1876 | Editora Paulus, 2009 | Páginas: 176 | Amazon

★★★★★

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4 comentários sobre “Helena de Machado de Assis #115 | Resenha

  1. Já li várias obras de Machado de Assis, que dizem ser o concorrente e o escritor de igual nível de Eça de Queirós deste lado. Tenho um fascínio pelo Alienista, mas também gostei de D Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, pouco mais li, mas dá para perceber a sua qualidade de escrita. Embora igualmente seja um crítico do comportamento social, é menos sarcático e viperino que Eça. Não li Helena, nem Ressurreição.

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    1. Olá, Carlos! Obrigada pelo comentário. Acredito que a fase romântica do Machado de Assis não vá agradar a todos os seus leitores. Pelas resenhas que li de Ressurreição e Helena na internet, tem muita gente que não gosta muito. Eu gostei e recomendo. Creio que Helena seja digno de atenção.

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  2. Helena é de fato um dos maiores romances de Machado de Assis. Além de ser extremamente envolvente (como você mesma afirmou, o suspense é intenso e ficamos fiéis à narrativa) e de ótima qualidade literária, é uma magistral imagem da condição feminina no século XIX, época em que as mulheres, oficialmente restringidas em sua atuação pública, estavam todavia se emancipando, seja pelo seu trabalho, pela sua busca pessoal de liberdade na vida privada, ou mesmo somente pela educação e busca do livre pensamento, como fazem Helena, Capitolina e Conceição. Aqui na Escola Feminista, nós estamos em uma fase de certa tristeza pelas mártires Mahsa Amini e Hadis Najafi, do Irã e agora estamos concentradas em apoiar as iranianas em seu movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, que está intenso, com manifestações e queimas públicas de véu (hijab) em todo o país. Todavia, embora um pouco ausentes no momento de buscas literárias, desejamos boa leitura!

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