O compromisso de Herta Müller #120 | Resenha

“É fácil falar de anos ruins quando eles já passaram. Mas se tivéssemos de dizer quem somos agora, só haveria um silêncio incômodo.” (p.156)

Primeira leitura concluída do ano, O compromisso da escritora romena de língua alemã Herta Müller. Ganhei esse livro de aniversário da minha irmã há dois anos, se encontrava ainda no plástico inclusive. Nos últimos dias de dezembro pensei ser o momento certo.

O compromisso foi publicado originalmente em 1997, ele é parte de uma obra literária ainda em construção, muito embora a escritora Herta Müller já tenha recebido o prêmio Nobel em 2009 com a incrível justificativa pela escolha de seu nome: “com a densidade da poesia e a franqueza da prosa, retrata a paisagem dos despossuídos.”

É um romance narrado em primeira pessoa, num tom do que chamo “narrativa de memórias”. É o tipo de livro que se torna muito importante conhecer um pouco sobre a história de vida do autor antes ou durante a leitura da obra. Sim, porque o que temos aqui é uma escrita em muito autobiográfica. A autora escreve sobre o que ela viveu, viu e ouviu, ficou sabendo de pessoas conhecidas… É uma escrita carregada dela mesma, dos despossuídos romenos e de tantos outros, conforme o alcance da literatura que sabemos ser imenso.

Na primeira linha do romance já temos uma síntese do que se trata todo o enredo “Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto.” A protagonista e narradora sem nome está indo numa viagem de bonde até o lugar onde será interrogada nada mais nada menos do que por um major da polícia secreta do ditador comunista Nicolae Ceausescu. O motivo de tal pressão, tortura psicológica e até física, é a infelicidade de ter sido pega após ter colocado alguns bilhetes em ternos destinados à Itália. Da fábrica onde trabalhava a protagonista tentava pedir socorro a algum homem italiano que quisesse se casar com ela e tirá-la daquele inferno totalitário. O enredo oscila numa narrativa sem pausa de capítulos entre a viagem de bonde e o fluxo de memórias e reflexões dessa mulher que sobrevive a uma vida insuportável.

Há muitos pontos que me chamaram atenção nesse livro, o fato de não ser revelado o nome da narradora. A narrativa carregada de informações que vai e volta, que não facilita em nada para o leitor, mas que exige dele a atenção devida para a seriedade daquilo que é narrado. A ausência de emoções, sabe, pensando agora depois de uns dias que terminei a leitura e após ter lido comentários de pessoas que leram, percebo como esse livro estranhamente não me emocionou em momento nenhum, estranhamente porque a vida dessa protagonista é muito marcada por traumas, mortes, violência… é narrado tantas coisas pesadas no livro, mas tudo de forma muito seca, não desperta emoções e acredito que não seja por acaso.

Terminei de ler esse livro com vontade de reler, não só pelo final aberto que me deixou pensando que eu perdi alguma coisa, mas porque é uma obra que como falei exige, desafia o leitor na minha opinião, e eu aceito o desafio.

Recomendo esse vídeo do Sebastião Barata como material de apoio: https://youtu.be/tRXaSwzN_jw


+INFO Livro: O compromisso | Autora: Herta Müller (1953- ) | Primeira publicação: 1997 | Tradução: Lya Luft | Editora Folha de S.Paulo, 2016 | Páginas: 175 | Estante Virtual

★★★★☆

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2 comentários sobre “O compromisso de Herta Müller #120 | Resenha

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