Guardando o coração (Parte 1)

Provérbios 4:23 diz assim: “De tudo o que se deve guardar, guarde bem o seu coração, porque dele procedem as saídas da vida.” Ao que precisamos nos perguntar, caso buscamos a compreensão desse verso, “O que é guardar o coração?”

Talvez um melhor caminho para seguirmos nessa meditação é dizer primeiro o que esse verso não é, ou não significa, ao menos diretamente.

Esse versículo é muito citado nas nossas igrejas evangélicas e principalmente em direção ao jovens e solteiros, incorretamente ao meu ver, para mera questão sentimental. E não, o capítulo 4 de Provérbios não é sobre ou se refere a questão sentimental, apesar do seu ensino poder e até dever também ser aplicado a essa e a todas as áreas da vida humana como se verá a seguir. Portanto, olhar para Provérbios 4:23, e encontrando a palavra coração, deixar-se ser levado a pensar que o sábio está falando das paixonites do coração dos meninos e meninas, homens e mulheres é reduzir e limitar sobremaneira o seu importante significado.

O coração

A primeira coisa que precisamos ter em mente para entender o que é guardar o coração segundo a Palavra de Deus é que a palavra coração no livro de Provérbios geralmente se refere ao centro da vida interior de uma pessoa. Nas palavras do comentarista da Bíblia de Estudo NAA sobre esse versículo: “é no coração que são produzidos os pensamentos, sentimentos e escolhas.” E, por isso, ele ainda diz: “alimentá-lo é vital, e vale a pena guardar a sabedoria no coração, porque é dele [o coração] que fluem todos os pensamentos, palavras e escolhas [as saídas ou fontes] da vida de uma pessoa.”

É do coração, o centro da nossa vida interior, ou se preferir, o centro daquilo que somos, que fluem todos os nossos pensamentos, todas as nossas palavras, todas as nossas escolhas. Como isso é sério! Para melhor compreensão do que essa afirmação significa e suas implicações vejamos algumas passagens do que o Nosso Senhor Jesus Cristo disse sobre os nossos corações:

O Evangelho Segundo Lucas 6:45 >> A pessoa boa tira o bem do bom tesouro do coração, e a pessoa má tira o mal do mau tesouro; porque a boca fala do que está cheio o coração.

O Evangelho Segundo Marcos 7:21-23 >> Porque de dentro, do coração das pessoas, é que procedem os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as maldades, o engano, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, o orgulho, a falta de juízo. Todos estes males vêm de dentro e contaminam a pessoa.

O Evangelho Segundo Mateus 15:11 >>E, convocando a multidão, Jesus disse: — Escutem e entendam: o que contamina a pessoa não é o que entra pela boca, mas o que sai da boca; isto, sim, contamina a pessoa.

O texto

Provérbios de Salomão é um dos livros da Sabedoria de Israel, também chamados de livros sapienciais. Seu tema principal descrito claramente no seu primeiro capítulo é “descrever e incutir a sabedoria no povo de Deus, uma sabedoria que está fundamentada no temor do Senhor e que faz funcionar a vida da aliança nos detalhes práticos das situações do cotidiano e nos relacionamentos.” (Comentário NAA). O sábio nos primeiros nove capítulos do livro traz uma convite de um pai para seu filho para que este siga o caminho da sabedoria. O capítulo 4 de Provérbios nesse contexto então, faz parte de uma série de apelos paternais à sabedoria.

Focando apenas no capítulo 4 na intenção de chegar ao versículo 23 e a sua compreensão, podemos destacar ao menos quatro seções importantes:

O pai diz ao filho que:

Versículos 1 a 9 >> A Sabedoria vale a pena.

Versículos 7 >> Então, adquira a sabedoria, adquira o entendimento.

Versículos 10 a 19 >> Acorda! Só existe dois caminhos, o da sabedoria e o da insensatez.

Versículos 20 a 27 >> E portanto, mantenha um coração sábio!

Logo, guardar o coração é mantê-lo sábio, e mantê-lo sábio é alimentá-lo de sabedoria. Em outras palavras, se guardamos a sabedoria no coração, os nossos pensamentos, sentimentos e escolhas serão sábias. Sendo o contrário também verdadeiro.

Esponjas

Para entender o peso disso podemos pensar em pequenos exemplos do nosso cotidiano em como nossos corações são potentes esponjas. Imagine que você no seu sábado ou domingo assista a um documentário bem interessante sobre flores e veja algumas imagens maravilhosas sobre as rosas e as suas espécies e características e ouça também aquele narrador com uma voz bem bonita daquelas de rádio dizendo algo assim: “as rosas foram criadas apenas para serem belas, pois não possuem muitos mecanismos de defesa…” Agora responda para si mesmo, será que há muito ou pouca probabilidade que na sua segunda, terça ou quarta-feira seguinte você comente com alguém, um amigo, um colega de trabalho, ou qualquer pessoa que encontrar sobre alguma coisa desse documentário ou sobre como as rosas foram criadas para serem só belas?

Vamos tentar de novo, imagine que numa ensolarada manhã você encontre um conhecido seu na padaria e der repente ele te conte uma baita fofoca do seu vizinho da rua ou do condomínio e você volte para casa com o pão quentinho para tomar aquele café da manhã com seu esposo, sua esposa, seus filhos ou com quem estiver em casa. Qual a probabilidade que você reproduza em alto e claro som tudo o que você ouviu na padaria?

Bem é disso que estou falando quando comparo o nosso coração a uma esponja. Acabamos absorvendo tudo ao que nos expomos. Não é questão de escolha, é questão de como funcionamos. Tudo o que paramos para ver, ouvir, falar, sentir é absolvido por nossos corações e também lançado para fora em pensamentos, palavras, sentimentos e escolhas – “dele procedem as saídas da vida”. Somos mais influenciáveis do que pensamos. E esse movimento de absorver e lançar para fora é contínuo.

Só guarda quem ama

E ainda tem mais, o grande problema disso tudo é que por si mesmos nossos corações são maus. Ou seja, sem qualquer influencia externa já temos dentro de nós um centro corrompido. Sim! Principalmente o centro de nossas vidas foi tocado pelo pecado. O profeta Jeremias escreveu sob a luz que recebeu do Espírito Santo: “Enganoso é o coração mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Quem poderá entendê-lo?” [1] 

Deus conhece profundamente os nossos corações. Ele sabe que nos mesmos somos nossos maiores inimigos. Por isso, Ele enviou seu Único Filho, o Nosso Senhor Jesus Cristo, para morrer em nosso lugar, derramando o seu precioso sangue e nos salvando assim da condenação do pecado e da morte. É através desse sangue de Cristo que somos também salvos de nós mesmos, que somos despertados do nosso sono profundo de ilusão, que somos curados da nossa cegueira para ver a luz, que somos confrontados e levados a viver uma nova vida. É somente através do sangue de Cristo que também passamos a amar o temor do Senhor, desejando agradá-lo e fazer a sua vontade, vivendo uma vida para Sua Glória, isso é, uma vida interior e exterior para Sua Glória. Portanto, somente pode fazer a guarda do coração, alimentando-o de sabedoria e assim zelando dos seus pensamentos, sentimentos e escolhas, aquele que ama e teme ao Senhor de todo coração.

[1] Jeremias 17:9
– Todas as passagens bíblicas citadas são da versão NAA exceto quando indicado.
– As citações referidas do comentarista da bíblia NAA são da Bíblia de Estudo Nova Almeida Atualizada, SBB, 2018
– Imagem So many locks, Beth Conklin

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